sexta-feira, 13 de março de 2009

O Dia em Que Chico Biu viu o Diabo

Ninguém costumava acreditar naquela pobre criatura. Era desajeitado, andava com a cabeça baixa, contava tudo que via pela frente, mas tinha algo peculiar naquela espécie de ser humano. Ele, como todo bom estranho, via coisas. E essas coisas eram reais. Seu nome era Francisco Bill do Nascimento Feitosa Lima Duarte, mas só viera saber desse nome quando tinha catorze anos de idade. Até então era somente Chico Biu.
Em uma de suas caminhadas por aquela terra distante de tudo que é longe, Chico Biu encontrou dois chifres vermelhos aterrados. E como todo bom estranho que se preze, encontrou da pior maneira, pisando. Foi uma dor que o coitado caiu que gemeu. “Valhei-me, mainha do céu.” Ele segurava o pé com as duas mãos, o sangue escorria. Quando os dois chifres resolveram se desenterrar. Subia um e logo após o outro. E como se não bastasse uma cabeça estava neles, quer dizer, eles estavam sobre uma cabeça. Era do diabo.
Quase que dançando e como se estivesse sendo desenterrando “puxado” por alguma força acima de sua cabeça o cabra ruim sorria e olhava pra Chico Biu. “Dói né meu filho?” Chico não sabia se era o medo ou o ferimento que doía mais em seu juízo. “Que que que...” O diabo não resistiu, sorria e como todo cabra ruim que se preze foi logo se ajeitando pra fazer sua apresentação. “Calma, filho. Deixe que eu me apresente. Eu sou o que vocês costumam chamar de Diabo, Cão Capeta...” pôs a mão na boca e como quem tenta disfarçar o que diz para que os outros não escutem disse: “... alguns gostam de dizer Cabra Ruim, o que me magoa às vezes.”
Logo após longos trinta e poucos minutos o cabra ruim, digo o Diabo já perderam o ânimo em se apresentar. Ele dançou, sorriu bastante, pulou de árvore para árvore, montou num hipopótamo, tentou até cantar um musical, mas Chico estava em um estado que fica entre o pânico e a excitação. Mudo. Não disse mais um ai. O sangue ainda corria pelo seu pé, mas não sentia mais dor. Sentado de frente para ele, totalmente entediado após longos três minutos com aquela figura estranha, o Diabo perguntou: “Tudo bem, qual é a sua graça?” Chico não entendeu e só disse um mero “Hein?” , fazendo careta como todo estranho que se preze. O Diabo continuou: “Qual seu nome rapaz, como lhe chamam, se apresente agora já que a minha apresentação num lhe serviu de nada”. Disse isso num tom de tristeza. “Sou o o o o, Chi chi chi Chico Biu. O coitado era gago, até nisso ele agraciado para sua deselegância.
Passado mais uns trinta longos minutos de risadas do Diabo, ele parou e viu que o coitado quem se entediava agora e prosseguiu. “Chico Biu? De onde você tirou esse nome menino?” Para não dificultar a leitura do leitor, digamos que o Diabo tirou sua gagueira, pois ele se irritava com gente gaga, a maioria das pessoas que estão no inferno são gagas e ele detestava. “Minha mãe quem escolheu. É uma homenagem a um homem que fez o computador, moço.” O Diabo não deu muita importância, dessa vez não achou a menor graça, olhou bem nos olhos de Chico e disse: “Olhe meu caro, você me tirou do meu sono, é nessas brenhas que costumo descansar sempre. Mas já que estou acordado e demoro pelo menos uns mil anos pra voltar a dormir, quero que me faça algo. Vá e traga o maior número de pessoas que conseguir irei mostrar Jesus para elas.”
Chico nem pensou duas vezes sai correndo e dizia para si mesmo “Eita, qué hoje, meu Deus. Peraí, Deus? Diabo? Será que... Vai entender esse povo divino.” E continuou até a cidade mais próxima, sua cidade. Era um lugar seco, um sol de rachar o solo. Havia cerca de trezentos moradores. Era casinhas simples que pareciam feitas de barro e madeira. Chico bateu em todas as portas gritando que o conheceu o Diabo. Não precisava muito esforço para que todos ouvissem o que o pobre rapaz dizia. Mas ninguém queria sair naquele sol. Chico era o único que não se importava. Dizia que nasceu ali naquela casa, sempre apontava o local, e se era no sol que havia nascido, seria para o sol que ele iria. As pessoas decidiram, em Assembléia, que ia seguir Chico. Não que acreditassem no que ele dizia, mas que há tempos num tinha nada mais para fazer se não tentar sobreviver. Era quase noite, ninguém arriscou sair mais cedo.
Subindo uma ladeira de difícil acesso, Chico conduzia aquelas pessoas e corria feito criança, já que não era mais, pois tinha seus inexplicáveis trinta e oito anos. No alto daquele alto, viu uma luz vermelha. Pela silhueta pôde ver dois homens, um com chifres. Correu mais ainda e viu que eles correram também. Chico tentava acompanhá-los, mas ao mesmo tempo despistava os outros moradores. “Vai devagar, Chico. Assim ninguém te acompanha, menino.” Mas os outros não viram o que Chico viu.
Logo após chegar ao alto, Chico viu a entrada de uma caverna. Nunca a tinha visto antes, as pessoas testemunharam o desaparecimento de Chico Biu pelo Diabo. Sentado e olhando para o horizonte, sim havia dentro da caverna um horizonte bordado por uma vegetação intensa, cachoeiras, animais de várias espécies, um céu que enchia a vista e era dia ali dentro, o Diabo. Chico sentou ao seu lado e sem entender e ainda admirando aquela vista não disse nada. O Diabo prosseguiu. “Parabéns, Chico. Você seguiu seu coração.” Apontando para dois túmulos, o Diabo disse: “Ali está o Jesus que você procurava. Você e todos os outros. É incrível que Jesus tenha me acompanhado e mesmo assim todos o procurem.” Ele baixou a cabeça. “Sabe, Chico, para se fazer as coisas boas nesse mundo temos a falsa ilusão de que é preciso fazer as coisas erradas primeiro. Não sou eu quem sou ruim. Não sou eu quem faço as pessoas fazerem as coisas ruins. Vocês têm todas as oportunidades que Deus lhes deu. Na verdade eu também tive, mas ignorei. Hoje pago um preço caro tendo que viver entre vocês humanos. Sempre destruindo, matando e com a desculpa de “criando” vocês dão um jeito de destruir ainda mais esse mundo. Dê só uma olhada para essa paisagem, Chico. Tudo isso é seu e está logo ali do lado. Claro, isso que você está vendo foi uma ilusão que criei, mas existe sim e o aguarda.” O Diabo não tirava o olho do horizonte enquanto falava com Chico, até aquele momento. Levantou-se e agora com a mão na cabeça de Chico disse: “Não seja mimado como eu fui. Obedeça a seu criador. Valorize o que lhe foi dado, isso eu sei que você já o faz, mas não mais como os outros, por isso eles não me vêem.”
Chico Biu viu o Diabo, todos viram que ele o tinha visto e que sumira bem diante seus olhos, mas logo foi esquecido. A última vez que viram Chico Biu foi quando ele passou por todos, voltando da conversa que teve com o Diabo. Com a espinha reta, olhava para frente e mesmo com a aparência de antes estava mais confiante e radiante, até levantou uns suspiros das meninas que estavam no meio daquela multidão de umas trezentas pessoas. Chico optou por viver. Conhecer o mundo que lhe foi ofertado. Nunca soube o que era certo e errado, mas aprendeu com os erros daquele que seria o mais improvável de todos: o Diabo. Nunca mais se ouviram falar de Chico Biu, a vida continuou a ser como era, as pessoas esqueceram que ele existiu e alguns anos mais tarde aquela pequena população foi extinta.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ouro no Bolso

“Mergulhei de cabeça naquele sentimento,
Foi me oferecido asas, mas neguei.
Pulei, ao chegar, nadei. Remei.
Acabei por aceitar meu barco. Afundei.

Esqueci de entregar o ouro.
Guardei em meu bolso, por mais
Tempo que o devia, o estraguei.
Tive em minhas mãos e atirei.

Continuo a me atirar, com asas,
Com força, com peso. Voei,
Não caio mais. Flutuo agora.
O ouro perdeu seu valor,
Mas trouxe o que mais queria...”

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Poema do Fundo da Garrafa

Extraí esse pequeno fragmento do texto logo abaixo. Caso o achem muito solto lá poderão obter algumas respostas imediatas. E um Viva às nossas Quintas-Feiras!!

“Todos os dias me invento,
Reinvento e me contorço.
Tento relembrar o que fiz
E às vezes esqueço.

Parado eu crio mais,
Penso ma(i)s parado.
Sem ter pronde ir e
Sem saber donde vim.

Lanço pra lá olhares e
Pra cá anoto na pele.
Sem caneta de tinta
Fiz sangue de escrever.

Anotado ma(i)s gravado
Sem pausa, sem reflexo.
Nada entendo com o que perdi.
Pois perdi o que entendi no nada,

Morri-me pra viver.”

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Um grito de VIVA!!

- Ôpa! Parou. Parou, parou, parou. Sério, pára tudo! Ei, senhora. É sim, a senhora mesmo. Pode parar também. Ou seu guarda, pare o senhor também. Êpa, o senhor também, seu motorista. Pronto. Agora sim. Tudo calminho. Gente, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas estou aqui humildemente para lhes contar uma história que me aconteceu quando eu corria.
Estava eu a correr. De repente tropecei, não sei como, em uma garrafa grande de vidro azul. Uma garrafa de bico largo, com cerca de quarenta centímetros. Ela ainda tinha o cheiro do espumante que poderia ter sido jogada ali na festa de ano novo. Ah, hoje é dia primeiro. Enfim, continuando... Limpei meu rosto que estava sujo de areia. Ah, eu estava correndo na praia e era dia primeiro. Enfim... Ao limpar meu rosto e depois de ter levantado daquela areia branca peguei a garrafa. Olhei pelo bico e nada. Mas aconteceu algo muito entranho naquele momento.
Como quem olha atentamente um pequeno caleidoscópio, eu vi pelo fundo da garrafa uma mensagem escrita naquela areia. Afastei meus passos cerca de três metros e pude ver com mais clareza. Sim, era uma mensagem e muito longa, parecia mais um texto pelo seu comprimento. Havia frases de cerca de cinco metros com letras de aproximadamente dez centímetros. Tomava espaço cada vez que tentava acompanhar a leitura escrita na areia vista pela boca daquela garrafa que encontrei na praia no dia primeiro. E a mensagem, quer dizer, aquele texto, foi a coisa mais linda que vi na minha vida.
Dizia assim:

“Entre num local onde os homens lutam por um espaço e grite” – Ôpa! Essa parte eu já fiz. Continuando...

Todos os dias me invento,
Reinvento e me contorço.
Tento relembrar o que fiz
E às vezes esqueço.

Parado eu crio mais,
Penso ma(i)s parado.
Sem ter pronde ir e
Sem saber donde vim.

Lanço pra lá olhares e
Pra cá anoto na pele.
Sem caneta de tinta
Fiz sangue de escrever.

Anotado ma(i)s gravado
Sem pausa, sem reflexo.
Nada entendo com o que perdi.
Pois perdi o que entendi no nada,
Morri-me pra viver
.”

- Eu sei minha gente, vocês acharam lindo num é? Quando li achei o mesmo, quase chorei de tanta emoção. Mas sejam pacientes. Isso não é um terço do que aquele texto me disse. Pra ser sincero levei esse texto pra um professor de literatura e ele disse que nunca viu algo tão, tão, tão, qual era mesmo a palavra que ele usou? Ah, tão negligente. Acho que ele gostou. Ele sorriu com a testa franzida enquanto balançava a cabeça. Acho que ele deve ter achado lindo também.

Enfim, continuando...

Todo dia olho para esse imenso céu negro, com suas estrelas perfeitamente bordadas em pontos-cruzes. Ainda em pé, quando o frio toma meu ser, logo um calor vem e me aquece. Isso faz com que me sinta protegido, diria vivo. Li livros de homens inteligentes, ajudei necessitados, amei todos a minha volta. Mas isso não é o bastante para me tornar um ser digno. É preciso ainda esperança. Todos meus erros se sobrepuseram aos acertos. Então, ao expô-los à balança do meu estágio, zerei-me. Não acertei, embora não tenha errado.
A vida que me foi dada, agora retirada, sofre agora o pesar. Ao contar as estrelas, conto os dias que vivi. As que passam a brilhar com mais intensidade são os dias da minha vida que foram julgados com mais acertos que erros. As que se apagam, os dias em que meus erros sobrepuseram os meus acertos. Não faz diferença “quem” ou “o quê” faz esses julgamentos. Eles sempre foram feitos desde o primeiro. E o primeiro foi fruto do último e assim se completa o ciclo. “Quem” ou “o quê” o iniciou? Não importa. Quando se está a olhar essas estrelas tudo faz sentido. Nosso julgamento é feito. Estrelas passam a brilhar ou se apagam. O que importa é o que fizemos. Embora essa conjugação do verbo “fazer” seja imutável. O que importará é o agora.
Não sou profeta. Não sou quem faz ou fez as leis e regras universais, nem mesmo faço idéia de quem o possa ter feito. Só vos deixo uma mensagem:

Não contem estrelas, aprecie-as. Elas apagarem ou brilharem cabe a cada um. Viva!


- Gente. Isso foi tudo. Agora, se quiserem, saiam dessa condu(i)ção e gritem!!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O choro das luvas

Quando se é pequeno o mundo parece imenso. À medida que vamos crescendo, o mundo “real” começa a tomar forma. Aprende-se as malícias da vida, toma-se pelo braço a necessidade de sobrevivência. O desejo de se viver, muitas vezes com conforto e, na medida do possível, com algumas regalias. Mas Pimpinho não cedeu a essas necessidades, como ele dizia: “xuperciais”. Com oito anos de idade já sabia o que queria: “Mamãe, vou dar porrada pra ganhar nessa vida.” A mãe dava forças.

O boxe era novidade na cidade. Pimpinho tinha ainda um terço dos 40 quilos exigidos para ingressar no esporte. Mas não desistiu. Batia em paredes, no sofá surrado, em árvores. Nunca em pessoas. Dizia que nunca iria precisar bater em ninguém até o dia em que viu o esporte de perto. A mãe o levara a uma academia. Naquele dia uma cuspida de sangue borrou a camiseta amarela dele. O soco dado por um dos lutadores em outro foi tão intenso que o fez fechar os olhos e chorar. A mãe disse que ele era novo, quer poderia ter e fazer o que quisesse da vida. Pimpinho secou as lágrimas, fez um bico, juntou as sobrancelhas e disse sério: “É o que quero mãe. Vou dar porrada pra ganhar nessa vida.”

10 Anos depois...

Aos 18 anos Pimpinho se tornou Cláudio. A barba começava a arranhar o pescoço das meninas do bairro. Seu nome corria tão rápido quanto seus socos. Não tinha uma se quer derrota ou empates. Com o salário que ganhava da academia e com as construções, trabalhando como pedreiro, Cláudio ganhou forma de homem e salário também. Ajudava a mãe e os irmãos relapsos. Não se importava. Fazia o que gostava. Dava porrada para ganhar nessa vida.

Nos seus 26 anos teve uma surpresa. Um dos campeões da cidade o desafiou. Queria saber porque aquele homem que só teve três empates técnicos, uma derrota e 38 vitórias, sendo 26 delas por nocautes, não conseguiu sair do meio médio. Seu treinador já tentou convencê-lo. Seria outro patamar para Cláudio, seriam novos competidores e possivelmente seu ingresso para criar asas no esporte. Mas Cláudio continuou onde estava. Manteve seus 66 quilos. Ele era o melhor na região. Mas não perdia a simplicidade, simpatia e molecagem. Todos o adoravam. Do tio da padaria à senhora que o levava doces antes de dormir.

3 Semanas depois...

Feito todos os preparativos. O ringue foi ampliado para a grande competição. Os sete metros quadrados que manteria os lutadores fixos, foi pintado com o logotipo da academia no centro. Arquibancadas foram feitas pelas mãos dos moradores do bairro, incluindo Cláudio. Ele dizia que as mãos que derrubariam seu oponente, iriam também ser as mãos que construiriam o palco onde crianças se tornariam homens. Cláudio lutou muito, não somente nos ringues, mas nos estudos. Formou-se em educação física e com sua formação conseguiu mais três instrutores amigos que o ajudaram a aumentar o nome da academia para qual trabalhava e amava.

Os quase dois quilos das luvas davam forma ao nome do esporte. Na academia ele não chamava somente boxe, tratava como pugilismo. Sempre explicava a origem da palavra, gostava de ser visto como alguém que usa conhecimentos para impressionar, não somente a força. Dizia: “Pugillus" do grego “punho fechado”. Dito isso ele cerrava os punhos e mostrava pra pessoa a qual impressionava. Sim, ele sempre impressionava.

A hora chegou. Os dois competidores se posicionaram um a frente do outro. O juiz, como quem profetiza palavras divinas, teceu as regras da competição. Voltaram para seus acentos, tiraram seus hobbes patrocinados, puseram os protetores de dentes e avançaram para luta. Cláudio nunca soube explicar o que aconteceu. Viu tudo branco e no meio daquela visão alva seu sangue caindo em câmera lenta no chão. Seu adversário havia o atingido forte. Aquele soco não foi comum no esporte, não da forma como foi travado. Um swing. O tipo de soco que abre a guarda de quem o aplica, mas se travado no adversário é muito potente.

Cláudio caiu. A visão voltava aos poucos. Ainda caído no chão começou a se assustar. À medida que recuperava a visão, se assustava cada vez mais. Olhava para o público que gritava aos berros: “Se levanta, Cláudio. Se levanta!” Ele parecia não conhecer aquelas pessoas. Ficou desesperado sem entender o que estava havendo. Não soube menos ainda explicar porque seu rosto sangrava muito. Num breve momento, quase que alguns segundos, viu seu adversário esperando-o se levantar com a guarda armada, gingando na sua frente. Do outro lado o juiz já havia começado com a contagem para término da luta.

Foi quando tudo desmoronou! Parecia procurar alguém no meio daquela multidão. Olhava com a testa cheia de sangue e franzida. Assustado e entendendo as coisas menos ainda. Pôs as luvas sobre o rosto, se deitou no chão em posição fetal e chorou. Gritou desesperadamente: “Mãe, me ajuda! Me ajuda! Me ajuda! Socorro! Estão me batendo!” gritava, soluçava, chorava. Cada vez menos entendia o que havia acontecido. O público ficou mudo. Olhava com a boca aberta sem saber o que dizer. A senhora dos doces, ainda com a mão na boca e quase chorando gritou: “Não bata na criança, seu monstro!” e todos caíram no coro: “Monstro! Monstro! Não bata na criança!” Seu adversário nunca soube explicar o que houve naquele dia. Afinal, lutava com um homem pelo que sabia.

A mãe de Cláudio o tirou do ringue em seus braços. Todos aqueles 66 quilos carregados por uma senhora de costas torcidas pela idade. As pessoas nunca souberam explicar o que houve. Mas houve. Aconteceu de verdade. Uma senhora de 54 anos levantou seu filho nos braços e o tirou de um ringue de boxe. Cláudio ainda luta profissionalmente. Aquela luta ficou travada na garganta de muitos, inclusive a minha. Tive que contá-la porque não agüentava mais. Acredite se quiser. Foi uma das cenas mais lindamente bizarras que já vi.