Ninguém costumava acreditar naquela pobre criatura. Era desajeitado, andava com a cabeça baixa, contava tudo que via pela frente, mas tinha algo peculiar naquela espécie de ser humano. Ele, como todo bom estranho, via coisas. E essas coisas eram reais. Seu nome era Francisco Bill do Nascimento Feitosa Lima Duarte, mas só viera saber desse nome quando tinha catorze anos de idade. Até então era somente Chico Biu.
Em uma de suas caminhadas por aquela terra distante de tudo que é longe, Chico Biu encontrou dois chifres vermelhos aterrados. E como todo bom estranho que se preze, encontrou da pior maneira, pisando. Foi uma dor que o coitado caiu que gemeu. “Valhei-me, mainha do céu.” Ele segurava o pé com as duas mãos, o sangue escorria. Quando os dois chifres resolveram se desenterrar. Subia um e logo após o outro. E como se não bastasse uma cabeça estava neles, quer dizer, eles estavam sobre uma cabeça. Era do diabo.
Quase que dançando e como se estivesse sendo desenterrando “puxado” por alguma força acima de sua cabeça o cabra ruim sorria e olhava pra Chico Biu. “Dói né meu filho?” Chico não sabia se era o medo ou o ferimento que doía mais em seu juízo. “Que que que...” O diabo não resistiu, sorria e como todo cabra ruim que se preze foi logo se ajeitando pra fazer sua apresentação. “Calma, filho. Deixe que eu me apresente. Eu sou o que vocês costumam chamar de Diabo, Cão Capeta...” pôs a mão na boca e como quem tenta disfarçar o que diz para que os outros não escutem disse: “... alguns gostam de dizer Cabra Ruim, o que me magoa às vezes.”
Logo após longos trinta e poucos minutos o cabra ruim, digo o Diabo já perderam o ânimo em se apresentar. Ele dançou, sorriu bastante, pulou de árvore para árvore, montou num hipopótamo, tentou até cantar um musical, mas Chico estava em um estado que fica entre o pânico e a excitação. Mudo. Não disse mais um ai. O sangue ainda corria pelo seu pé, mas não sentia mais dor. Sentado de frente para ele, totalmente entediado após longos três minutos com aquela figura estranha, o Diabo perguntou: “Tudo bem, qual é a sua graça?” Chico não entendeu e só disse um mero “Hein?” , fazendo careta como todo estranho que se preze. O Diabo continuou: “Qual seu nome rapaz, como lhe chamam, se apresente agora já que a minha apresentação num lhe serviu de nada”. Disse isso num tom de tristeza. “Sou o o o o, Chi chi chi Chico Biu. O coitado era gago, até nisso ele agraciado para sua deselegância.
Passado mais uns trinta longos minutos de risadas do Diabo, ele parou e viu que o coitado quem se entediava agora e prosseguiu. “Chico Biu? De onde você tirou esse nome menino?” Para não dificultar a leitura do leitor, digamos que o Diabo tirou sua gagueira, pois ele se irritava com gente gaga, a maioria das pessoas que estão no inferno são gagas e ele detestava. “Minha mãe quem escolheu. É uma homenagem a um homem que fez o computador, moço.” O Diabo não deu muita importância, dessa vez não achou a menor graça, olhou bem nos olhos de Chico e disse: “Olhe meu caro, você me tirou do meu sono, é nessas brenhas que costumo descansar sempre. Mas já que estou acordado e demoro pelo menos uns mil anos pra voltar a dormir, quero que me faça algo. Vá e traga o maior número de pessoas que conseguir irei mostrar Jesus para elas.”
Chico nem pensou duas vezes sai correndo e dizia para si mesmo “Eita, qué hoje, meu Deus. Peraí, Deus? Diabo? Será que... Vai entender esse povo divino.” E continuou até a cidade mais próxima, sua cidade. Era um lugar seco, um sol de rachar o solo. Havia cerca de trezentos moradores. Era casinhas simples que pareciam feitas de barro e madeira. Chico bateu em todas as portas gritando que o conheceu o Diabo. Não precisava muito esforço para que todos ouvissem o que o pobre rapaz dizia. Mas ninguém queria sair naquele sol. Chico era o único que não se importava. Dizia que nasceu ali naquela casa, sempre apontava o local, e se era no sol que havia nascido, seria para o sol que ele iria. As pessoas decidiram, em Assembléia, que ia seguir Chico. Não que acreditassem no que ele dizia, mas que há tempos num tinha nada mais para fazer se não tentar sobreviver. Era quase noite, ninguém arriscou sair mais cedo.
Subindo uma ladeira de difícil acesso, Chico conduzia aquelas pessoas e corria feito criança, já que não era mais, pois tinha seus inexplicáveis trinta e oito anos. No alto daquele alto, viu uma luz vermelha. Pela silhueta pôde ver dois homens, um com chifres. Correu mais ainda e viu que eles correram também. Chico tentava acompanhá-los, mas ao mesmo tempo despistava os outros moradores. “Vai devagar, Chico. Assim ninguém te acompanha, menino.” Mas os outros não viram o que Chico viu.
Logo após chegar ao alto, Chico viu a entrada de uma caverna. Nunca a tinha visto antes, as pessoas testemunharam o desaparecimento de Chico Biu pelo Diabo. Sentado e olhando para o horizonte, sim havia dentro da caverna um horizonte bordado por uma vegetação intensa, cachoeiras, animais de várias espécies, um céu que enchia a vista e era dia ali dentro, o Diabo. Chico sentou ao seu lado e sem entender e ainda admirando aquela vista não disse nada. O Diabo prosseguiu. “Parabéns, Chico. Você seguiu seu coração.” Apontando para dois túmulos, o Diabo disse: “Ali está o Jesus que você procurava. Você e todos os outros. É incrível que Jesus tenha me acompanhado e mesmo assim todos o procurem.” Ele baixou a cabeça. “Sabe, Chico, para se fazer as coisas boas nesse mundo temos a falsa ilusão de que é preciso fazer as coisas erradas primeiro. Não sou eu quem sou ruim. Não sou eu quem faço as pessoas fazerem as coisas ruins. Vocês têm todas as oportunidades que Deus lhes deu. Na verdade eu também tive, mas ignorei. Hoje pago um preço caro tendo que viver entre vocês humanos. Sempre destruindo, matando e com a desculpa de “criando” vocês dão um jeito de destruir ainda mais esse mundo. Dê só uma olhada para essa paisagem, Chico. Tudo isso é seu e está logo ali do lado. Claro, isso que você está vendo foi uma ilusão que criei, mas existe sim e o aguarda.” O Diabo não tirava o olho do horizonte enquanto falava com Chico, até aquele momento. Levantou-se e agora com a mão na cabeça de Chico disse: “Não seja mimado como eu fui. Obedeça a seu criador. Valorize o que lhe foi dado, isso eu sei que você já o faz, mas não mais como os outros, por isso eles não me vêem.”
Chico Biu viu o Diabo, todos viram que ele o tinha visto e que sumira bem diante seus olhos, mas logo foi esquecido. A última vez que viram Chico Biu foi quando ele passou por todos, voltando da conversa que teve com o Diabo. Com a espinha reta, olhava para frente e mesmo com a aparência de antes estava mais confiante e radiante, até levantou uns suspiros das meninas que estavam no meio daquela multidão de umas trezentas pessoas. Chico optou por viver. Conhecer o mundo que lhe foi ofertado. Nunca soube o que era certo e errado, mas aprendeu com os erros daquele que seria o mais improvável de todos: o Diabo. Nunca mais se ouviram falar de Chico Biu, a vida continuou a ser como era, as pessoas esqueceram que ele existiu e alguns anos mais tarde aquela pequena população foi extinta.
