segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O choro das luvas

Quando se é pequeno o mundo parece imenso. À medida que vamos crescendo, o mundo “real” começa a tomar forma. Aprende-se as malícias da vida, toma-se pelo braço a necessidade de sobrevivência. O desejo de se viver, muitas vezes com conforto e, na medida do possível, com algumas regalias. Mas Pimpinho não cedeu a essas necessidades, como ele dizia: “xuperciais”. Com oito anos de idade já sabia o que queria: “Mamãe, vou dar porrada pra ganhar nessa vida.” A mãe dava forças.

O boxe era novidade na cidade. Pimpinho tinha ainda um terço dos 40 quilos exigidos para ingressar no esporte. Mas não desistiu. Batia em paredes, no sofá surrado, em árvores. Nunca em pessoas. Dizia que nunca iria precisar bater em ninguém até o dia em que viu o esporte de perto. A mãe o levara a uma academia. Naquele dia uma cuspida de sangue borrou a camiseta amarela dele. O soco dado por um dos lutadores em outro foi tão intenso que o fez fechar os olhos e chorar. A mãe disse que ele era novo, quer poderia ter e fazer o que quisesse da vida. Pimpinho secou as lágrimas, fez um bico, juntou as sobrancelhas e disse sério: “É o que quero mãe. Vou dar porrada pra ganhar nessa vida.”

10 Anos depois...

Aos 18 anos Pimpinho se tornou Cláudio. A barba começava a arranhar o pescoço das meninas do bairro. Seu nome corria tão rápido quanto seus socos. Não tinha uma se quer derrota ou empates. Com o salário que ganhava da academia e com as construções, trabalhando como pedreiro, Cláudio ganhou forma de homem e salário também. Ajudava a mãe e os irmãos relapsos. Não se importava. Fazia o que gostava. Dava porrada para ganhar nessa vida.

Nos seus 26 anos teve uma surpresa. Um dos campeões da cidade o desafiou. Queria saber porque aquele homem que só teve três empates técnicos, uma derrota e 38 vitórias, sendo 26 delas por nocautes, não conseguiu sair do meio médio. Seu treinador já tentou convencê-lo. Seria outro patamar para Cláudio, seriam novos competidores e possivelmente seu ingresso para criar asas no esporte. Mas Cláudio continuou onde estava. Manteve seus 66 quilos. Ele era o melhor na região. Mas não perdia a simplicidade, simpatia e molecagem. Todos o adoravam. Do tio da padaria à senhora que o levava doces antes de dormir.

3 Semanas depois...

Feito todos os preparativos. O ringue foi ampliado para a grande competição. Os sete metros quadrados que manteria os lutadores fixos, foi pintado com o logotipo da academia no centro. Arquibancadas foram feitas pelas mãos dos moradores do bairro, incluindo Cláudio. Ele dizia que as mãos que derrubariam seu oponente, iriam também ser as mãos que construiriam o palco onde crianças se tornariam homens. Cláudio lutou muito, não somente nos ringues, mas nos estudos. Formou-se em educação física e com sua formação conseguiu mais três instrutores amigos que o ajudaram a aumentar o nome da academia para qual trabalhava e amava.

Os quase dois quilos das luvas davam forma ao nome do esporte. Na academia ele não chamava somente boxe, tratava como pugilismo. Sempre explicava a origem da palavra, gostava de ser visto como alguém que usa conhecimentos para impressionar, não somente a força. Dizia: “Pugillus" do grego “punho fechado”. Dito isso ele cerrava os punhos e mostrava pra pessoa a qual impressionava. Sim, ele sempre impressionava.

A hora chegou. Os dois competidores se posicionaram um a frente do outro. O juiz, como quem profetiza palavras divinas, teceu as regras da competição. Voltaram para seus acentos, tiraram seus hobbes patrocinados, puseram os protetores de dentes e avançaram para luta. Cláudio nunca soube explicar o que aconteceu. Viu tudo branco e no meio daquela visão alva seu sangue caindo em câmera lenta no chão. Seu adversário havia o atingido forte. Aquele soco não foi comum no esporte, não da forma como foi travado. Um swing. O tipo de soco que abre a guarda de quem o aplica, mas se travado no adversário é muito potente.

Cláudio caiu. A visão voltava aos poucos. Ainda caído no chão começou a se assustar. À medida que recuperava a visão, se assustava cada vez mais. Olhava para o público que gritava aos berros: “Se levanta, Cláudio. Se levanta!” Ele parecia não conhecer aquelas pessoas. Ficou desesperado sem entender o que estava havendo. Não soube menos ainda explicar porque seu rosto sangrava muito. Num breve momento, quase que alguns segundos, viu seu adversário esperando-o se levantar com a guarda armada, gingando na sua frente. Do outro lado o juiz já havia começado com a contagem para término da luta.

Foi quando tudo desmoronou! Parecia procurar alguém no meio daquela multidão. Olhava com a testa cheia de sangue e franzida. Assustado e entendendo as coisas menos ainda. Pôs as luvas sobre o rosto, se deitou no chão em posição fetal e chorou. Gritou desesperadamente: “Mãe, me ajuda! Me ajuda! Me ajuda! Socorro! Estão me batendo!” gritava, soluçava, chorava. Cada vez menos entendia o que havia acontecido. O público ficou mudo. Olhava com a boca aberta sem saber o que dizer. A senhora dos doces, ainda com a mão na boca e quase chorando gritou: “Não bata na criança, seu monstro!” e todos caíram no coro: “Monstro! Monstro! Não bata na criança!” Seu adversário nunca soube explicar o que houve naquele dia. Afinal, lutava com um homem pelo que sabia.

A mãe de Cláudio o tirou do ringue em seus braços. Todos aqueles 66 quilos carregados por uma senhora de costas torcidas pela idade. As pessoas nunca souberam explicar o que houve. Mas houve. Aconteceu de verdade. Uma senhora de 54 anos levantou seu filho nos braços e o tirou de um ringue de boxe. Cláudio ainda luta profissionalmente. Aquela luta ficou travada na garganta de muitos, inclusive a minha. Tive que contá-la porque não agüentava mais. Acredite se quiser. Foi uma das cenas mais lindamente bizarras que já vi.

6 Comentários!!:

kelyne samara disse...

Oi, adorei, embora ñ acredite no seu comentário ai abaixo, beijos, realmente, muito interessante, ainda estou escrevendo meu blog, mas tá ai o endereço.
http://kelynesamara.blogspot.com/

Pedro Gurgel Moraes, um Poeta disse...

História muito louca. Bizarra. Como me foi dado o direito, não acredito, mas espero que seja verdade... \o/

Bem vindo aos blogs de quinta! \o/

Hermes disse...

Boa história. Você narra bem, parabéns rapaz.

Hermes disse...

E você interpretou o nome "Eule" como se fosse o quê?
Prazer. o/

Miúda disse...

me pareceu que toda aquela inocencia de menino foi aparecer depois de muito tempo..

Gleiciane disse...

João sou sua fã numero 1
vivo te dizendo isso mas vc é incrivel,
quando penso q já ví tudo vc se supera
e eu fico sempre babando hehehe